A gente podia começar esse texto falando da espessa e densa nuvem carregada de constantes mudanças de valores que acompanham nossa história recente. Pelo menos desde os anos 2010, sentimos a aceleração dessas mudanças, principalmente do ponto de vista do digital. Também poderíamos ser redundantes e dizer que a vida nunca mais será a mesma depois da pandemia de 2020, e elencar cada um dos pontos que a quarentena fez acelerar e se consolidar.

Mas a gente escolheu falar sobre a principal mudança em curso na sociedade hoje que é expressa pelo zeitgeist da diferença, ou seja, existem múltiplas formas de se relacionar com o mundo e as coisas ao redor e não uma visão única. Por isso quando falamos no novo normal nos perguntamos… Normal para quem?

Sair do padrão do que é entendido como normal tem se manifestado de muitas formas. Em meio a tanta ansiedade acarretada por crises financeiras, ambientais, de saúde pública (mental e física) especialmente a crise cadenciada pela COVID-19, o Fórum Econômico Mundial lançou um projeto interessante chamado de “The Great Reset” – em português seria a “Grande Redefinição”. Ou seja, para tudo. Precisamos começar de novo.

Esse projeto escancara a urgência necessária de um chamado coletivo para todas as partes globais interessadas em melhorar o estado atual do mundo, perante as consequências óbvias de que nossas decisões, em sua grande maioria, não estão dando certo até aqui. Mostra, inclusive, a importância em aderir um pensamento mais coletivo, complexo e multiforme, onde os negócios que em “tempos normais” eram feitos com o propósito de maximizar lucros, agora precisam ser pensados e feitos a partir de um ponto de vista mais sistêmico. Hoje um produto/serviço só é viável se resolver parte de um problema maior, problema esse que pode ser uma questão social, tecnológica ou ambiental, por exemplo.

Outro aspecto deste imperativo da diferença são as expressões da diversidade. Ao longo desta acelerada década que se encerra em 2020, tais valores que circulavam como discussões, migraram para o terreno das práticas e vem remodelando muitos dos nossos padrões de comportamento – vide marcas e personalidades que passaram por cancelamentos e boicotes nos últimos tempos. Estamos vendo a consolidação do consumo como ato político – seja de conteúdo, de produtos ou serviços – e aparentemente essas manifestações só tendem a evoluir, principalmente no ciberespaço, que se consolida como o palco de expressão das novas gerações.

Outro bom exemplo desse “não-normal” se manifesta no que entendemos por luxo. Para 2021, uma das tendências que a WGSN (nossa parceira aqui no IED) aponta é: “The End of More”- em português: “O Fim do Mais”. Nos olhos do consumidor, essa tendência evidencia o fim de um consumo individualista, entendido anteriormente como “lugar de exageros”, de inconsequências, de acúmulo e esgotamento. O fim da busca por uma satisfação pessoal a todo custo através do consumo. 

Com os ajustes de uma visão mais ecocêntrica, abre-se espaço para um consumo de baixo impacto, um redesenho dos ciclos produtivos, onde interesses em economia circular aumentam, principalmente na redução do uso de matéria prima e de desperdícios e sobras de produção em qualquer momento do processo, procurando sempre formar um ciclo sem pontas soltas. Para os negócios, e também para a sociedade, isso representa criar melhores formas de remunerar o trabalho e reconhecer a responsabilidade de todos atores envolvidos nestes processos, inclusive os atores não-humanos – os rios, as cidades, as infraestruturas de tecnologia e o próprio clima. 

A década que se abre em 2021 pede um ritmo mais inovador e menos predatório. Cultivo e construção dos próprios elementos de produção, enaltecimento de produtores/fornecedores locais, desenvolvimento de políticas públicas mais arrojadas e prósperas para a comunidade, traduzidas em ações mais inclusivas, já que falar é pouco para esse mundo de mudanças rápidas. As pessoas pedem por ação e movimento. 

Para concluir, retomamos as discussões do Fórum Econômico Mundial – estamos à beira de um colapso, a necessidade de reajustar os rumos se torna mais que imperativa, uma contingência. Já passamos do ponto onde tudo poderia ser ajustado sem maiores consequências, estamos na fase de conter danos e reprogramar uma bomba relógio climática acionada por nossas ações inconsequentes. Abriu-se uma janela para um redesenho coletivo das ações humanas, perante a necessidade de moldar a recuperação do mundo. 

Esta oportunidade é única e envolve fundamentalmente um trabalho de design especulativo (ou future design) – reprojetar o estado futuro das relações globais, a direção das economias nacionais, as interações com serviços digitais, as garantias de privacidade e segurança digital, as desigualdades na sociedade, a natureza dos modelos de negócios e a gestão de um modo de vida minimamente digno para todos. Um trabalho que exige colaboração de diversas áreas e especialistas, entre estes: nós, designers.

Sejam bem vindos à década do não-normal.

Douglas Cavendish e Natalia Kaupa, coordenadores do One Year Future Studies